O novo xerife da lei

Era sexta-feira passada. Outro dia das minhas férias, um dia comum, um dia entediante. Meu pai chega em casa lá pelas 6 horas, e diz que tem uma carta para mim. Todas as vezes que recebi uma carta na vida era propaganda de políticos, empresas de cartão de crédito que eu nem ao menos sou cliente me mandando feliz aniversário. Ou seja, o clássico spam na vida real.
Ele começa a ler a carta. Eu nem sei porque ele faz isso, se provavelmente eu não vou escutar. No meio das baboseiras que eu ouvia enquanto usava o computador, até mesmo o meu pai não estava muito interessado em ler, ouvi algumas palavras chave, tribunal, regional, mesário. Epa, pera aí. Mesário?
Fudeu!
Na hora eu postei no twitter um tweet bem irônico sobre as minhas mais novas responsabilidades. E em segundos fui brindado com algumas respostas geniais mais irônicas que a minha. Misturando todas elas, eu seria alguém do tipo que sentaria na cadeira com os pés sobre a mesa, cachimbo na mão, chapéu na cabeça. Se isso não bastasse, uma pistola na cintura e uma voz poderosa que eu gritaria:
– Cadê o seu título de eleitor? Identidade? Não estou vendo! Aqui tu não vota, rapá!!!
É isso aí. Xerife Lucas Blindwood, prazer.
Como a justiça é cega, o sistema eleitoral, o mesário, epa, o mesário não dá! – Por isso mesmo eu teria que ir lá desfazer o mal entendido. Ou não.
Essa situação me fez pensar se o país tivesse adaptado o cargo de mesário para pessoas com deficiência. A famigerada história de inclusão para todos, e confesso que comecei a rir sozinho. A reflexão me pôs para pensar uma segunda vez: Qual ajuda do governo eu já recebi até hoje por ser cego?
Até hoje tive meus materiais de escola impressos em centros especializados, mas não sempre que precisei. Já tive acompanhamento educacional, aula de orientação, e acho que só. Bom, isso não é suficiente. Tanta coisa poderia ser mudada nas ruas: sinaleiros, calçadas, leis, coisas simples. E é feito? Não. E eu nem sei por quê.
Muitos benefícios que são disponibilizados para pessoas com deficiência requerem que a pessoa em questão tenha uma renda reduzida. O que não acho justo. É claro. Pago imposto do mesmo jeito, contribuo com o sistema, mas o sistema não contribui comigo. A maioria dos produtos especializados para deficientes custam uma fortuna pelo fato de serem produzidos em pequena escala, e a maioria deles serem importados. O meu celular não pode ser um de 50 reais que é só tirar da loja e sair usando. Infelizmente, ou felizmente, ah… Sei lá. Tem que ser um smartphone que possa rodar um leitor de telas para celular. Afinal, ninguém gosta de usar um celular sem tela. É como me sinto usando um celular que não é acessível, um celular que não fala. No final das contas, o ponto é que eu tenho as mesmas dificuldades que os outros deficientes, e às vezes o estado me exclui de facilidades que eu poderia ter se meus pais ganhassem apenas um salário mínimo ou dois, que é normalmente como funciona os requisitos dessas facilidades. Poderia se alegar que, como meus pais recebem mais que o valor estipulado, eles podem pagar sem problemas para que eu tenha as mesmas facilidades que as pessoas que não podem pagar. Mas isso é uma mentira. Um exemplo que posso citar como estudei em escola particular, boa parte da minha vida, para que eu tivesse meu material, além de pagar minha apostila no colégio, algumas vezes tive que pagar para que minhas apostilas fossem impressas em Braille, porque o estado não imprimiria para mim. Ou seja, acabei pagando duas vezes para ter acesso a informação.
Pois é, José. E nem sei se emprego o termo facilidade corretamente. Com o passar do tempo, acostumei com as coisas do jeito que são que às vezes nem me lembro do que está certo e do que está errado. E quando aparece algo novo que deveria ser feito, algo que deveria ser assim há muito tempo, eu chamo de facilidade, mas não é bem assim. Torna-se uma facilidade a partir do momento que você está acostumado a fazer algo, e a maneira certa, mostra-se mais fácil do que a errada, é nesse sentido que eu me refiro.
Acho que isso acaba acontecendo sempre com a gente. Tento me policiar para analisar as coisas. Aquelas que tem muita importância e as que nem tem tanta assim. Pensar se isso está certo ou errado, o que da para mudar, e se tem como mudar. Ficar parado, acostumado é conformismo, e às vezes podemos cair nele sem perceber. Dou o meu exemplo, mas não sou diferente de ninguém aí. Eu faço várias coisas, e as pessoas também. Eu me acostumo com as coisas, e as pessoas também. É tudo muito parecido, muito acostumado. É… Conformado.

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~ por lucasradaelli em 29 de julho de 2010.

5 Respostas to “O novo xerife da lei”

  1. lindo texto Lucas! Só não elogio mais por que você não vai me ver na Bienal, hunf!

  2. Eu ri muito da cena do xerife blindwood! ehauheauhea
    mas é triste que o estado não ajude quem precisa… é uma vergonha. as “facilidades” são coisas que deveriam existir há tempos e ser absurdamente óbvias… =(
    Boa sorte como mesário, ehauehauheauh.

  3. Ah, preciso atualizar esse post. Eu fui lá essa semana e falei que não seria mesário, e o cara falou que tudo bem. E fui embora. Só.

  4. Eu sou pobre e continuo me fodendo. Abs. (PS: não sou cego.não fisicamente.)

  5. aahuahuahuahauhauhauhaua, só o grande bicdomo para nos presentear com tanta sabedoria em um único comentário.

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