[A Saga do Cão Guia] – Capítulo 2

•8 de março de 2011 • 5 Comentários

No primeiro dia, em um anúncio que fizeram por meio das caixas de som que temos no quarto, eu tomei um susto que todos gostariam de ver, mas minha sorte é que não era uma pegadinha do malandro filmando a situação. Coloquei meu despertador para me acordar 2 minutos antes das 6 horas, então eu já estava acordado quando aquela voz do além veio nos acordar. A voz até que é gentil, mas é que leva um tempo pra se acostumar com esse tipo de coisa.

Nossa rotina, como o pessoal vem nos explicando, sempre seguirá um mesmo padrão. A cada dia que passa, os intervalos que temos são preenchidos com as coisas que teremos que fazer nesses horários. Às 6 horas, acordamos e logo fizemos uma sessão de obediência – nos ensinaram alguns comandos para usarmos com os cães, principalmente como usar nossa linguagem corporal com eles, movimentos com a coleira, etc. Apenas fizemos os movimentos com a coleira (sem os cães), e nos preparamos para o café, que foi perto das 7.

Falando sobre comida, eu realmente pensei que quando eu chegasse aqui as coisas seriam um pouco mais calóricas. Você sabe como é; Todo aquele papo que os Estados Unidos comem fast food / comidas gordurosas o tempo todo, talvez seja a mesma coisa que a gente faz com os Baianos falando que eles só ficam na rede durante o dia. Só para sacanear mesmo. Não reclamo de nenhum modo do que estão servindo aqui. todas as comidas são bem preparadas e gostosas, mas confesso que eu gostaria de comer umas batatas fritas, bacon e hamburgeres – mas eu só tinha conhecido o almoço e a janta. O Café era mais ou menos o que eu esperava.

Falando mais especificamente do café da manhã, ele era bem o que eu esperava, tivemos ovos mechidos, torradas e bacon. O devido café dos campeões. Bacon = campeão.

Depois do café, fomos direto para um centro de treinamento da escola. É uma casa grande de madeira, localizada em uma cidade bem perto daqui. O cronograma do dia seria andar cada pessoa junto do estrutor segurando uma coleira simulando o cão guia, para analisar aspectos como velocidade, atenção para ver se o cão estava fazendo tudo corretamente e mantendo a rota, sua força na hora de dar as correções de coleira no cão e conseguir puxá-lo, caso preciso, entre outros. Além desses fatores, eles também tomam em consideração o ambiente em que você vive e, claro, suas preferências em relação a raça, cor e sexo. Falei que eu preferia um macho, mas que a cor não importava e nem a raça. Tanto labrador quanto golden retrieever estaria bom.

Eles levavam dois estudantes por vez, então os outros tinham tempo para ficar na casa conversando, usando celulares, notebooks ou só tomando café da máquina tal como eu fiz. Alô pai, eu gostaria uma máquina igual para ter no meu quarto de aniversário, obrigado. Continuando, almoçamos por lá mesmo, pois nem todos haviam ido ainda fazer as caminhadas com os instrutores.

A questão do idioma tem sido algo muito engraçado. No momento que eu estou escrevendo esse texto, as vezes quero terminar uma frase e penso nas palavras em inglês, em português, ta virando uma confusão!!! – (e meu pai ainda pediu para eu continuar estudando alemão no meu horário vago, hahaha, seria loucura!!!) – Até consegui traduzir uma piada do português para o pessoal e eles riram mesmo. Onde eu mais tenho problemas é com algumas conversas casuais que eles usam algumas expressões, e coisas relacionadas a comida. Hoje me apresentaram uns 4 tipos diferentes de queijo, e o único que eu consegui identificar foi o provolone, o jeito é experimentar cada um, e ver qual você gosta mais. O problema que nesse processo você pode se ferrar. Perguntaram se estaria tudo bem comer um tal de soft pepper no jantar, e eu disse que sim. O problema que era uma comida a base de pimentão, o qual é green pepper. Na minha ignorância com esse tipo de vocabulário pensei que seria algum tipo de pimenta que usamos para tempero, agora to aqui no quarto com o meu estômago revolto, toda vez que como pimentão me acontece isso. E Murphy dá o seu olá nas terras do tio Sam. O chato mesmo que isso só aconteceu pela minha ignorância mesmo. Eles já passaram pelo menos duas vezes por todos os estudantes perguntando se eles não comiam algum tipo de comida. Bom, eu só não gosto de polenta e pimentão, mas eu não tinha a mínima idéia de como dizer isso. E qual a chance de ter uma comida totalmente baseada em pimentão? Aí que entra o Murphy.

Hoje também conhecemos o resto da equipe que trabalha aqui. Enfermeiras estão sempre disponíveis para nos atender, caso precisemos, voluntários podem fazer compras para nós se precisarmos algo que não tem na escola. Cada dia que passa, me passa sempre a impressão que o sistema funciona muito bem aqui, eles realmente se preocupam com todos os detalhes.

Tivemos logo após disso uma aula sobre como será nossa rotina aqui com o cachorro, que receberemos amanhã a tarde. Não vou descrevê-la agora porque muitas coisas ainda precisam ser explicadas, principalmente as partes do dia reservadas para cuidar do cão, então deixo isso para outro dia, mas a aula foi um pouco demorada com vários detalhes sobre rotina, um pouco sobre como ajustar a a rotina do cão a sua, como funcionará amanhã, o que vamos treinar amanhã, como fazer isso e aquilo. Enfim, é muita coisa mesmo.

Por hoje é isso. Amanhã será o grande dia que conheceremos nossos futuros amigos, e acredito que todos estão bem animados.

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[A Saga do Cão Guia] – Capítulo 1

•7 de março de 2011 • 7 Comentários

Embarquei ontem, dia 6 de março de 2011, no avião que me levaria até os Estados Unidos para, finalmente, eu ter o tão sonhado cão guia.

A parte que eu menos me preocupava era o avião. Os aeroportos são muito bem esquematizados e tratam com facilidade as pessoas com algum tipo de deficiência. Sempre há um funcionário para te levar para cá e para lá, o que ajuda muito no meio de todo aquele caos.

Saí de Curitiba, fiz uma conexão em São Paulo, e voei durante 10 horas até chegar no aeroporto de New Arc. Acho que foram as 10 horas mais demoradas da minha vida. A poltrona que eu estava era pior que aquelas de ônibus convencionais que pegamos por aí para viajar; Pelo menos as de ônibus deitam um pouco mais que aquela. Logo na chegada, um monte de gente da imigração e atendentes do avião falando inglês, você é bombardeado com um idioma que você não está tão acostumado assim e tem que se virar. A primeira pergunta que me fizeram eu logo pensei ‘To começando mal pra caramba. Olha o absurdo que eu entendi!!!! – A mulher estava perguntando se eu preferia andar ou ir na cadeira de rodas. Eu pedi pra ela repetir e uma aeromoça repetiu para mim em português. E o pior: eu tinha entendido corretamente, estavam me perguntando realmente isso. E claro, fui andando.

Passei pela imigração, peguei minha mala (a qual demorou um pouco para ser achada), e encontrei o motorista que me levaria até a escola. Mais uma hora e meia de carro, dessa vez em um assento realmente bom onde fui dormindo, e chego na escola. Deveria estar zero graus no lado de fora, mas uma vez dentro das portas, removi todas as minhas jaquetas porque estava bem aquecido o ambiente.

Depois de terem mostrado cada coisa do meu quarto – e que quarto, diga-se de passagem. Tenho tudo que preciso e mais um pouco aqui para ter uma estadia confortável pelos próximos 25 dias. Frigobar (prevejo um estoque de coca-cola), uma cama de casal, acesso a internet para o meu notebook, banheiro, tv, som, ar condicionado, banheira, e até um botão de emergência caso eu tenha que pedir ajuda. Tipo um ‘mamãe vem aqui rápido que to morrendo.’.

Depois de eu tirar um breve cochilo, entrei um pouco na internet para atualizar os amigos de que eu ainda estava vivo para a infelicidade de alguns, e felicidade de outros. Não tive muito tempo para isso e já tivemos o almoço.

As refeições aqui são bem interessantes. Todos nos reunimos em mesas na sala de jantar, e o clima é bem descontraído e agradável. Como aqui é os EUA, eu estava esperando para comer um baaaaaaaacon, mas não foi a vez dele ainda 😛

Durante a tarde, me mostraram toda a construção. A estrutura deles aqui é muito boa. São 18 quartos que acomodam os estudantes e os instrutores, sala de jantar, pelo menos umas 4 salas de estar, cada uma com algo diferente, tipo sala de tv, sala de música, sala de jogos, desse tipo. Também existe uma sala onde temos máquinas de café e refrigerante, sala de exercícios com esteiras, bicicletas e máquinas de levantar peso que deve ter um nome (que eu não sei), uma sala de aula, lavanderia, sala de informática com vários computadores rodando jaws/window-eyes/nvda com algumas linhas braille, e provavelmente outras coisas que eu esqueci, é realmente muita coisa. Mas fica mais do que claro que qualquer pessoa que venha para cá, se sentirá muito a vontade e confortável.

Um fato a tarde me surpreendeu. A janta será sempre as 5 da tarde!!! Segundo um amigo meu ta com cara de hospital isso aqui, hahahaha. Voluntários estarão disponíveis amanhã para fazerem compras para nós, e com certeza vou pedir algumas coisas para deixar no meu quarto. Provavelmente eu vou ter fome a noite.

Iremos conhecer nossos cães na quarta-feira. Eu não sei o nome dele ainda, raça, cor, sexo, nada; Amanhã faremos uma espécie de teste para ver qual cão se adaptaria melhor a nós, e os instrutores vão debater sobre para chegar a melhor decisão.

Em relação ao inglês, acredito que tenho me saído muito bem. O que importa de verdade, as aulas/palestras, tenho entendido sem problemas, mesmo com vários termos técnicos e outros mais sendo apresentados. Mas já conversas casuais, por exemplo no jantar ou almoço, eu boio muito. O pessoal começa a falar muitas expressões e também rápido feito uma metralhadora, daí fica difícil. Mas acredito que pouco a pouco eu supero isso.

Minha primeira impressão da guiding Eyes foi totalmente positiva. O lugar é muito bem preparado para receber pessoas com deficiência visual, e as pessoas que trabalham aqui são todas profissionais no que fazem, e melhor ainda, gostam muito do que estão fazendo. As instrutoras da nossa turma são muito divertidas e sempre estão conversando com a gente.

A noite, Após uma aula que tivemos sobre os equipamentos básicos que usaremos com o cachorro, coleiras entre outros, vim para meu quarto tomar um banho e escrever esse texto e ficar um pouco na internet. O primeiro dia foi bem cansativo porque só consegui dormir de manhã um pouco, e a viagem tinha sido longa. Mas amanhã é outro dia, e estou bem animado esperando por ele.

[A Saga do Cão Guia] – Prelúdio

•18 de fevereiro de 2011 • 10 Comentários

Logo que sentei no avião, dia 16 de fevereiro de 2011, eu fiz uma revisão rápida do que havia acontecido até aquele momento. Como alguém que apenas liga fatos que tenham importância, eu de um segundo a outro revivia ocasiões e minhas escolhas que foram me levando até o presente momento.

E então, eu nasci cego de um olho e perdi a visão do outro aos 4 anos. Culpar quem? A genética está aí pra isso, perpetuar a espécie e criar diferenças sobre os indivíduos de um grupo. Não que a gente sempre aceite bem o último ás de paus que faltou para fechar um royal straight flush que destruiria a mesa inteira. Acabamos por priorizar muito as aleatoriedades que nos levam a grandes sucessos e às vezes remoer demais as que nos levam a grandes derrotas ou destinos que não eram esperados por nós, isso é da natureza humana. Ser cego eu não considero uma derrota, mas claro que eu não gostaria de ser assim e sempre passo por meus altos e baixos, enquanto lido com esse problema, e o encaro de maneiras diferentes. E os crossing overs através do tempo que me levaram a possuir esse problema genético (não confirmado ainda, mas a única explicação), foram uma sequência de eventos que não me levaram ao royal straight flush que eu gostaria de ter tido.

Eu cresci. Uma infância normal com algumas diferenças. Não vamos nos demorar nessa parte, até porque não é o assunto principal. Vamos diretamente para a parte que eu tinha que me locomover, interagir socialmente com as pessoas, visitar lugares. E como eu faria isso sozinho? Com o uso da bengala, é claro.

Ah, bengala. Eu reconheço sua importância, mas não nos acertamos de jeito nenhum. Reconhecidamente você não me protegia de todo, não me proporcionava a velocidade que eu queria. Era prática para ser posta em uma bolsa, e não exigia cuidados muito dispendiosos, mas ainda assim, não era o que eu buscava.

A primeira vez que ouvi falar de um cão guia não compreendi suas capacidades. Com o tempo, acabei lendo mais sobre o assunto, e queria ter uma chance de um dia, ter essa facilidade.

Desde meus 16 anos, corri atrás do que era possível. Todos os lugares na época, exigiam que eu fosse maior de idade. Esperei. E enquanto esperava, continuei estudando inglês, porque todos me diziam que no Brasil seria muito difícil de conseguir.

Quando fiz 18 anos, mandei minha aplicação para muitas escolas. Brasileiras e estrangeiras, esperando uma resposta positiva. Das brasileiras, nunca fui contatado, e nem mesmo sei se alguma hoje em dia está em funcionamento. Sempre me perguntam ‘Como conseguir um cão guia no Brasil, Lucas?’ – e pra falar a verdade eu não faço a mínima idéia. Falta verba no nosso país, falta apoio. Na época, uma escola estrangeira me contatou: Para dizer que não aceitavam mais brasileiros. com a crise americana, as verbas que recebiam na época foram diminuídas,, e os serviços deles não poderiam ser estendidos para outros países como faziam antes. Pelo fato do cão guia ser oferecido gratuitamente ao deficiente visual, o seu custo é muito elevado, envolvendo treinamento, acomodação durante o tempo de treino do usuário e o cão, etc.

Esperei um ano. Em um dia de inspiração, pensei: ‘Por que não procurar uma escola de cães guia no google?’ -E encontrei outra escola americana. Esta também aceitava brasileiros. Logo fiz minha aplicação, e aguardei ansiosamente.

Dois meses depois, o processo iniciou. Outra espera de oito meses foi iniciada, a qual terminou quando um representante da escola viajou até o brasil para ver minhas capacidades, necessidades e avaliar qual seria o melhor cão para mim, e se eu estava apto a receber um. E eu estava; eu fui aprovado!

O próximo passo seria tirar o visto americano. E era o que eu estava indo fazer, quando sentei naquele avião no dia 16 de fevereiro de 2011. Sem sombra de dúvidas, eu estava um pouco nervoso; Todos que me contavam histórias de como foi tirar seu próprio visto sempre tinha alguma coisa pra atrapalhar – uma fila enorme, perguntas às vezes sem sentido, entre outros.

No momento que cheguei, enfrentei a fila preferencial que não tinha ninguém. Peguei uma senha preferencial e fiz a pré-entrevista, que ocorreu tudo bem. Esperei mais um pouco, minhas digitais foram tomadas, e fui conduzido até o guichê onde eu seria entrevistado.

O português do funcionário que me atendeu não estava muito claro. Me parecia que ele estava sem confiança para falar no nosso idioma, visto que era americano. Ele falava muito baixo, como se não estivesse muito seguro do que estivesse fazendo, o que é normal quando não conhecemos um idioma muito bem.

Ele me deu uma instrução uma, duas, três vezes e eu não entendi o que ele quis dizer. Fiquei um pouco nervoso na hora – ‘nem consigo entender o cara, e agora?’ -Mas minha sorte foi que meu amigo que me acompanhava foi mais cabeça fria e por estar acostumado a falar inglês por morar na Holanda, perguntou se o cara gostaria de falar inglês. Uma idéia simples que não me ocorreu na hora, mas que mudou todo o cenário.

Uma transformação ocorreu. Ele falou muito tranquilamente, explicou que deveríamos ir até o guichê ao lado, pois o colega dele era responsável pelos atendimentos especiais, introduzindo a senha no sistema. Fui ao lado, e por reflexo cumprimentamos o atendente em inglês mesmo.

A entrevista ocorreu tudo bem, informei o que eu iria fazer, quando ia e quando voltava. Tive meu inglês elogiado e me desejaram boa sorte, e tive meu visto aprovado.

Foi mais uma etapa cumprida na saga do cão guia. Agora já estou em Curitiba, terminando de escrever esse texto e a coisa que eu mais penso no momento não é mais se vou conseguir ou não tirar o visto, e sim no dia de embarque para os EUA, quando finalmente, será dado o início dos treinos em New York, na Guiding Eyes for the Blind.

Resolvi escrever essa série de textos documentando minha viagem, o processo de treinamento por alguns motivos. Eu sempre quis ler uma experiência assim de outra pessoa, detalhe por detalhe. Alguns amigos já passaram por ela, mas o que me contaram foi algo um pouco vago. Acredito que outras pessoas também possuem essa curiosidade, e com essa minha nova série de textos, poderão saciá-la. O outro motivo é não precisar contar milhares de vezes a mesma história para amigos diferentes, escrevo aqui e pronto. Espero que gostem.

Talvez na vida eu não tirei o ás de paus que eu queria para fechar o royal straight flush. Mas mesmo o 2 de paus que me saiu no baralho, depois de uma olhada mais atenta, me garantiu um flush. E de flush em flush, de pouco a pouco, a gente vai superando, a gente vai lutando e batalhando, pra chegar um dia onde a gente quer; Atingir os nossos objetivos da vida, melhorando-a cada vez mais.

Destruiram minha infância

•1 de fevereiro de 2011 • 20 Comentários

Às vezes recebemos notícias que são para mudar a vida inteira. Dessa vez, a notícia foi para destruir a minha infância.

Por volta de dois anos atrás, meu amigo Kenny me revelou, não lembro em que circunstância, que os personagens do Chaves eram adultos imitando crianças. Isso me perturbou de uma certa forma, porque, no meu entendimento, eles eram realmente crianças atuando. Foi tipo destruir toda uma magia. Valeu aí, Kenny.

Para assistir TV, eu sento lá e apenas escuto os diferentes sons do programa, como não poderia deixar de ser. Tento extrair pelas conversas, som ambiente tudo o que se passa. Se alguém está junto comigo e não entendi uma cena, pergunto o que aconteceu, mas é só.

Por conta disso, às vezes eu acabo imaginando coisas erradas, muito erradas. E mal sabia o Kenny dois anos atrás, quando recebeu o troféu de destruidor de infâncias, que um dia seria superado sem piedade. Que seria jogado para o escanteio com uma plaquinha dizendo “Nunca chegará nem perto de receber esse troféu novamente, você é moleque!”. Porque dessa vez, amigos, o abalo foi maior, a minha suposição passou longe, e a minha infância foi destruída em pedaços.

Eu caminhava tranquilamente no shopping com o meu amigo Lost quando ele me diz que avistou uma garota parecida com a do Scooby-doo. Depois de dar alguns nós no cérebro chutamos um nome: Velma. Por um tempo achamos que seria essa, mas ele disse que não, disse que era a outra, cujo nome não lembramos na hora.

O assunto sobre o desenho animado continuou, e abordamos os cachorros. Não lembro muito bem como esse papo continuou, porque se eu pudesse eu apagaria tudo isso da minha mente, me arrependo de um dia ter iniciado essa conversa… Mas o momento fatídico, começa aqui:
– Lembra? Quando o Scooby-doo ficava com medo, ele ia pro colo do Salsicha. Explicou o meu amigo Lost, iniciando toda uma catástrofe.
– Como assim ia pro colo do Salsicha? Respondi eu, inocentemente.
– Ué – ele ficava com medo, e pulava no colo do Salsicha.
– Mas como ele vai no colo do Salsicha cara?
– Pulando no colo dele, simples.

Não amigos, não era simples. Era o complicado início de uma devastação. E agora, a revelação:
– Mas o Salsicha não é um cachorro? – Como o Scooby-doo vai pular no colo dele?
– O quê? – O Salsicha um cachorro? – Não, você deve estar me zoando.

E era nisso que meu amigo acreditava, que eu estava o apenas sacaneando. O nosso papo continuou, até eu convencer ele que eu não sabia…..

QUE O SALSICHA ERA HUMANO!!!! PORRA!!!

Como é que vocês me fazem uma dessa? Ele tinha aquela voz escrota, se arrastava por aí com o Scooby, como é que ele é um humano? Por toda a minha vida eu imaginei que ele fosse um cachorro, e com 19 anos de idade, eu tenho essa decepção.

Eu ainda não acredito nisso.

Golfin Kaethar – a história de um halfling

•5 de setembro de 2010 • 1 Comentário

Esta é a história do meu personagem de rpg, um halfling ladino. Escrevi ela hoje e compartilho ela aqui com vocês, espero que gostem!

― Trinta anos. Trinta anos que aconteceu tanta coisa que é difícil relatar os pormenores dessa história. O que remanesce na mente da grande maioria são os pontos chave que mudaram o rumo da história, bruscamente, e por tantas vezes. Na mente de poucos, aqueles que sobreviveram à traição do mel de ouro guardam seus segredos, visando um dia a retomada do que é seu por direito, embora isso pareça ser impossível. O que é propriedade por direito daqueles que foram traídos um dia já não existe mais. O material se fora, naufragado ou escondido por mentes astuciosas. O que resta para ser retomado é o orgulho de uma família, uma comunidade e o respeito pelas lembranças de amigos que agora jazem no fundo do mar.

Mas para aquele que tem contato com esse manuscrito, que em um instante quase foi derrubado por uma onda de informações, se resistente o for, pode voltar e nadar até o ponto que deseja alcançar. O ponto que tudo ficará claro e as dúvidas sanadas. Pois agora que um pouco da água de toda essa história já está em seu corpo, volte a entrar neste mar de dúvidas e incertezas, para conseguir mais da fonte. A fonte que explicará a história de Golfin Kaethar.

Há trinta anos tudo começou, mesmo que todos os envolvidos não soubessem que aquele seria o ponto inicial. A largada foi dada quando a última gota de tinta caiu sobre a carta que selava um decreto de guerra entre duas nações de humanos, localizadas perto do reino Halfling. Para aqueles halflings que a vida seria totalmente mudada em um piscar de olhos, o real motivo da guerra nunca foi esclarecido. Um quebra cabeça foi sendo montado, embora as peças infelizmente nunca parecessem ser do mesmo formato ou tamanho. Mesmo que o mais hábil dos halfling tentasse montar esse mosaico de informações não obteria sucesso. Informações quebradas, outras deformadas. O quebra cabeça nunca seria completo nem perfeito, mas já dava uma boa idéia do que acontecia lá fora. E isso dava um curso de rumo nas ações dos halflings, embora em um primeiro momento essa ação fosse um profundo sentimento de indiferença para com a guerra que se desenrolava a centenas de quilômetros.

Os halflings, um povo que não é dado à guerra, sempre foi pacífico por natureza e continuaria o sendo, mesmo sobre grande pressão, sempre prezando resolver as questões pela diplomacia ou esperteza. Mas esse sentimento de indiferença logo seria substituído por um de inconformação e auto proteção, sentimentos com tanta intensidade que muitos não acreditariam ser possível existir dentro de corações tão pequenos. Pobres aqueles que têm esse pensamento.

Os corações dos halflings são pequenos no tamanho, mas inabaláveis na constituição e ferocidade que podem guardar. Com toda a certeza, aqueles que perturbam a paz que os halflings tanto amam, as festividades e celebrações que eles tanto realizam, caro teriam que pagar.

O reino humano que deu início a guerra só o fez porque se sentiu ameaçado por algo. Rotas comerciais, diziam alguns, demarcação de fronteiras diziam outros. Aí estavam duas peças do mesmo quebra cabeça que poderiam estar no mesmo lugar, e ninguém sabia qual era a certa a se pôr. A mobilização do exército do reino atacante foi algo notável, e a uma primeira vista o reino invadido sofreu grandes baixas pela velocidade do ataque. Mas ao chegar ao núcleo do inimigo, o qual era constituído por sólidas fortalezas e um ótimo sistema de troca de informações, o avanço foi contido e até mesmo rechaçado. Sendo assim, a guerra voltava ao seu estado inicial. Os dois reinos tiveram um tempo de inércia, onde nenhuma mobilização visível era notada. Mas por de baixo dos panos os planos eram traçados, e depois de um leve momento de quietude, o qual até poderia ser confundido por paz, a verdadeira guerra estourou.

O reino atacante agora sim tinha mais motivos para se sentir ameaçado, pois o contra-ataque foi de velocidade e organização equivalente ao ataque original. E se o ataque do primeiro reino era eficiente, sua defesa era comprometida em vários pontos. A guerra começou a tomar um rumo inesperado ao primeiro reino, que foi forçado a fazer uma penosa aliança com os goblins. Os goblins há muito tempo haviam tornado-se criaturas “pacíficas” devido seu número reduzido. Sua natureza sempre foi violenta, mas reprimidos de todos os lados por outros povos, não tinham chances para porem para fora de suas bainhas suas espadas quebradas. Mas ao primeiro chamado de peleia, e carnificina, correram de bom grado a encilhar seus cães de montaria, lobos de guerra e juntarem os cacos de metal que chamavam de armas. E, logicamente, correr à guerra atrás de espólios e brigas sem ao menos saber se havia chances de vencer. O todo não vencia, não era assim que os goblins pensavam. O individual vencia ou morria, e tinha ouro. É assim que todos pensavam, juntar ouro para fugir o mais cedo possível.

A situação voltou a equilibrar-se, porém neste momento não durante um momento de quietude, e sim de sangrentas batalhas que ocorriam a quase todo o momento. A luta agora era por polegadas de território, e o objetivo final era derrotar em suma maioria o exército inimigo, para que não pudesse reerguer-se e bloquear a invasão ao reino inimigo.

Se foi dito que os goblins não são criaturas notáveis por sua inteligência, isso é verdade. Mas sua ânsia por riquezas está em seus corações todo o momento. Parte dos suprimentos do primeiro reino teve que ser destinados ao reino Goblin, que visava formar-se em algum lugar. Os goblins haviam sido espalhados por vários lugares do mundo, e desejavam um reino para se agruparem novamente. Sobre o comando de Greabakhe, os mantimentos eram estocados e empregados para limpar uma região de terra inabitada para construir a capital Goblin, da onde, os futuros planos de conquista seriam iniciados.

Neste momento, o número de mantimentos que chegava ao reino Halfling, que comerciava com o primeiro reino humano, diminuiu drasticamente. Os preços subiram em uma taxa nunca observada por aqueles que tinham anos de vida e histórias para contar. Seriam tempos difíceis, diziam aqueles que conseguiam ter uma visão geral do panorama atual. E estavam certos, contudo, não sabiam eles que tudo ainda iria piorar.

Os halflings, amistosos que são, ainda assim entenderam a diminuição dos produtos que chegavam a suas terras, e diminuíram sua cota diária de comida, que era alta, diga-se de passagem, diminuíram seu consumo, e começaram a viver mais modestamente. Um reino que era tomado pela alegria e festividade virou algo mais soturno e melancólico, mas, ainda assim, um reino que guardava uma felicidade dentro de cada halfling.

Sendo a inteligência algo presente na vida destes fabulosos pequeninos, logo sugestões para melhorar a qualidade de vida de todos foram posta em debate. Um grupo de halflings mercadores que se destacava pela inovação constante, reuniu um grupo de jovens halflings e os mandou em um barco comprado recentemente atrás de outras fontes de comércio. Os pequenos empreenderam a tarefa com entusiasmo, acompanhado por um grupo de marinheiros humanos que os ensinariam a arte do mar.

O barco zarpou, e durante dois meses aguardaram seu retorno, o qual seria uma espécie de reconhecimento por terras que se localizavam perto, e outras mais longínquas. Durante esse tempo, o número de mercadorias que chegava ao reino Halfling foi diminuindo mais e mais, até chegar a um nível crítico de abastecimento. As famílias estavam magras, os animais com os ossos a aparecer, e o término da guerra sem previsão de chegar.

Foi então que um mês e meio após a partida do barco de reconhecimento, os halflings receberam uma notícia que seria o ponta-pé inicial para uma abordagem mais drástica de toda a situação. O barco que havia sido enviado em reconhecimento foi tomado pelos goblins que gerenciavam a troca de recursos entre o reino humano e o rei goblin. Os poucos sobreviventes voltaram em barcos, parecidos com canoas compridas com velas.

Um dos sobreviventes, filho de um mercador muito rico, era um halfling que acompanhou o barco para aprender mais sobre a navegação e, quando voltou para casa, relatou tudo ao seu pai, que logo se propôs a tomar uma atitude mais radical. Em um mês de arranjos, firmou uma aliança secreta com o reino que havia sido atacado inicialmente, o qual forneceu um navio pequeno de guerra para os halflings, tudo que os mesmos precisavam.

Com poucos ajustes, o navio estava totalmente adaptado ao seu tamanho, as gáveas, seus mastaréus, facilmente atingíveis através de cordas as quais os pequenos escalavam tão bem. Em conjunto desse navio de guerra, ao mar foram lançadas várias das canoas longas com velas, que eram soltas em momentos de patrulha por serem velozes e facilmente manobráveis.

Sobre o comando do navio de guerra foi posto a mulher que o mercador mais confiava, sua própria filha. Ela era conhecida por sua inteligência aguda e teimosia. Halflings zarparam e velejaram, seu navio de guerra e seus pequenos barcos, cheios de halflings com arcos e espíritos determinados a preservarem seus direitos.

E uma ação que iniciou como uma pequena defesa a vida, a propriedade e a liberdade dos pequeninos, diriam os mais filósofos, tornou-se uma poderosa ferramenta de guerra para quem a usasse. Os primeiros ataques realizados aos navios inimigos não tiveram qualquer resistência. Os goblins eram massacrados a distância por flechas, com seus navios danificados por aquelas que eram incendiárias. Cercados por todos os lados por pequenas embarcações parecidas com canoas que possuíam uma mobilidade espantosa morreram como formigas sobre o convés dos navios mercantes pagos como tributo pelo reino humano ao reino Goblin.

Mesmo quando tais navios começaram a ser tripulados militarmente para resistir à ameaça não foi suficiente para deter a astúcia halfling. Mais e mais canoas com velas foram lançadas ao mar, e dois navios de guerra também foram enviados pelo reino humano ao ver que a investida funcionava em bloquear o acesso dos mantimentos, com isso, os goblins começando a deixar o campo de batalha.

Agora, a posição dos halflings como corsários, termo diplomático para designar piratas que interceptam navios mercantes sobre uma bandeira, era consolidada e temida. As batalhas mais importantes travadas entre halflings contra humanos e goblins foram inúmeras, com maioria das vitórias de halflings.

Nessa época, eles tinham um nome que toda vez que era ouvido, era temido. Eram chamados de vespa do mar. Suas flechas como zumbidos e picadas mortais, aliados a embarcações que pareciam voar sobre a água, sobre o comando de uma mulher que era a abelha rainha de toda a colméia, as vespas do mar tornaram-se uma lenda viva, conhecida em todos os mares do mundo.

Golfin Kaethar nasceu sobre tempo de guerra, em um vilarejo costeiro onde algumas das canoas com velas aportavam para repor mantimentos e reparar armas. Seu pai era capitão de uma dessas naus, e Golfin desde pequeno acompanhou o pai em incursões onde não havia risco. Foi treinado na arte do arco como seus companheiros, e também sabia usar a espada. Aprendeu a nadar, embora não gostasse do esporte sabia que ele poderia ser um dia necessário.

O tempo passou rápido, e em intervalos de paz e momentos conturbados pela guerra, a vida deste jovem halfling foi passando até que ele chegasse à adolescência. Nessa época, os goblins apoiavam em muito pouco os humanos, apenas restando alguns goblins mercenários nas fileiras. O restante havia se deslocado para a mais nova capital goblin montada pelo antigo rei goblin com ajuda dos tributos pagos pelo primeiro reino.

Quando Golfin chegou à idade de juntar-se as fileiras, ele fez parte da colméia do mar, o navio comandado pela filha do mercador. Teve chance de navegar apenas dois meses a bordo desta magnífica nau de guerra até estar cara a cara com sua primeira batalha no mar. E não foi uma batalha comum. Foi à última batalha, decisiva entre halflings e goblins, os quais levavam os últimos mantimentos e armas para sua mais nova capital.

As baixas dos dois lados foram enormes, mas a vitória foi dos pequenos halflings mais uma vez. Nessa época, a batalha entre os dois reinos humanos também estava por terminar, e o primeiro reino, o que havia iniciado a guerra, acabou perdendo. Uma convenção foi acertada para combinar os tributos que deveriam ser pagos e a quem deveria ser pago.

O reino que havia dado os navios para os halflings voltou-se contra eles, imaginando que eles poderiam exigir uma parte do tributo que deveria ser pago todo ano. Em conta disso, uniram-se com seu mais novo aliado, o reino que acabara de perder uma guerra e navegaram contra os pequeninos que agora estavam enfraquecidos devido à última guerra. O massacre foi como nenhum outro. Poucos sobreviveram, e a morte do pai de Golfin foi neste trágico dia. A abelha rainha da colméia do mar conseguiu safar-se, mas seu paradeiro é desconhecido até hoje. Muitos acreditam que ela até mesmo morreu na fuga. Mas Golfin conseguiu escapar, deixando sua comunidade da vespa do mar para trás, como muitos outros. Fugiu do reino halfling evitando uma perseguição futura e vaga pelo mundo talvez tentando reencontrar a abelha rainha, embora ele não acredite muito nessa possibilidade. Virou uma espécie de peregrino tentando usar suas habilidades em algum lugar. Um garoto que nasceu sobre um navio, que sabe usar o arco, lutar e consertar coisas. Talvez em terra ele tenha que provar seu valor mais do que nunca.

A arte de dizer oi

•3 de agosto de 2010 • 2 Comentários

Com passos decididos, o rapaz de altura mediana adentrou o bar.
Óculos escuros escondendo olhos vazios, enquanto uma jaqueta de couro trajava um corpo magro. Uma aparência que parecia ter sido cuspida para fora das páginas de um livro de vampiro a máscara. A pele branca, os cabelos compridos indo até metade das costas, e um pingente do martelo de Thor pendurado no pescoço. Uma aparência que contrastava algo que, ao ser arremessado para fora das páginas do primeiro livro, levou mais algumas páginas de um segundo de cultura medieval por diversão. E por fim, uma cara de mau, a qual é atributo de qualquer ser humano comum.
Encostou-se no bar e ao seu lado uma mulher linda, que não precisa ser descrita, tomava uma bebida tranquilamente. Ele diz oi, e os olhos dela brilham, mesmo que ele não soubesse disso. Oi.
– Qual é seu nome? – Diz o rapaz misterioso, se apoiando no balcão.
– (Adicione um nome feminino qualquer aqui), e o seu?
– Xerife Blindwood.
– Aquele que aparece na noite e desaparece antes mesmo que os maus feitores tenham chance de dar um último suspiro?
– assim o dizem.

PORRA!!! PARA TUDO!!

Notem que essa é uma descrição totalmente destorcida e nada nela é real, Tirando a parte que eu tenho cabelo comprido, mas é só. E sabe por que não é assim? Porque a vida não é filme, senhores, não é filme. A realidade é mais dura, e a gente não tem informações secretas sobre os outros, nem títulos a serem alardeados por aí. Bom, nem sempre.
Estava conversando com um amigo, tempos atrás, sobre como conhecemos pessoas. Chegamos a uma conclusão que quase a totalidade de nossas amizades foi feita por sermos apresentados por outro amigo em comum, nos encontramos na internet em algum fórum onde compartilhamos opiniões semelhantes, enfim, internet em geral. Também conhecemos nossos amigos às vezes em algum lugar onde fazíamos a mesma coisa, normalmente nos ferrando muito. O tipo de lugar onde a camaradagem surge para que a sobrevivência torne-se possível. Ok. Exagerei, mas sinto que depois que fiz matemática discreta, meus laços de amizade se estreitaram com um amigo meu de tanto estudarmos juntos, compartilhando as dificuldades encontradas.
Não sinto a necessidade de ficar conhecendo gente nova a cada semana, até porque amizade é uma coisa simples, no final das contas. Fazemos amigos porque eles têm coisas em comum conosco, e se for para que fiquemos amigos, assim será.
Outro ponto em questão que discutíamos, foi a facilidade de personagens de filmes entrarem em bares e conversarem com mulheres que nunca estariam em um bar daqueles, e ainda a conversa parecer normal. A meu ver, qualquer tipo de aproximação de uma pessoa onde não há um motivo bem definido, por exemplo, pedir as horas. Prolongar uma conversa ao pedir as horas para alguém, pode parecer patético mais tarde. Mas continuemos.
Imagine que você se a alguém em um lugar que você esteja. Bar, casa de show, restaurante, churrascaria, festa, tanto faz. Você diz “oi” e a pessoa diz “oi” de volta.
Aí começam os problemas. E agora? O que você vai falar? O que pode ser dito para que essa conversa não seja idiota? Sempre pensei nisso . Se você foi falar com aquela pessoa, algum interesse você tem. Mas ao menos que esse objetivo seja bem definido, essa conversa tende a ser um desperdício.
Não sou contra que pessoas que não me conhecem ou não tem algo em específico para falar comigo venham até mim, mas é que a aproximação sempre parece algo estranho. Sinto um desconforto porque me coloco na situação da pessoa, mesmo que ela esteja acostumada a fazer isso.
Ou seja, nerds: Esqueçam. Não há um algoritmo para cortejar uma dama desconhecida em um recinto qualquer. Você dirá oi, perguntará o nome, e sua próxima pergunta/comentário inevitavelmente será idiota. A não ser que essa dama em questão tenha gostado de sua aparência e queira conversar com você. Que infelizmente acho que não seja o caso. Mas novamente, continuemos.
Citei uma mulher desconhecida no bar, porque é um bom exemplo, e me faz rir porque alguns amigos já me perguntaram como fazer isso. Porra, como é que eu vou saber? Enfim, não me perguntem mais! Eu sei menos que vocês. A não ser que a garota esteja usando uma camiseta, escrito: ‘I am here because my server is off’, não sugiro aproximação a não ser que você seja bonito pra caralho. Que infelizmente tenho que repetir, não é o caso.
Abordar pessoas desconhecidas do mesmo sexo continua sendo estranho, mas um fator é descontado da lista de problemas. Se alguém aborda outra pessoa de sexo diferente, deve ter algo no inconsciente que força o interpelado a acreditar que existe um interesse sexual, o que pode prejudicar muito quem puxou a conversa. Se sua aparência não foi aceita, seu comentário que já será idiota, pode ser piorado ainda mais por um olhar estranho ou uma resposta brusca. O que não aconteceria normalmente em pessoas de mesmo sexo, apenas restando o comentário idiota para ser avaliado.
Tenho novamente que ressaltar que me refiro a abordagens á pessoas desconhecidas sem um motivo bem definido. E acho que escrevo esse texto mais como um apanhado de conclusões meio óbvias que estão por aí, para quem quiser chegar até elas.
Agora, minha mensagem é: Sempre que for falar com algum desconhecido, tenha seu objetivo em mente. Se você quer cortejar uma dama em algum lugar, tenha isso em mente, e não fraqueje. Se quiser fazer uma nova amizade com alguém que parece ser legal, aborde essa pessoa e fale das coisas que você gosta e veja se os gostos batem. E se o objetivo for conseguir informações secretas sobre alguém, vá lá e manipule o sujeito direito. E é só. Defina o que deseja, seja lá qual for, e faça suas falas de apresentação, de introdução social não serem tão idiotas, mascarando-as com confiança.
Forte abraço, e lembrem-se que eu não falo com estranhos. Sou um cara teórico.

O novo xerife da lei

•29 de julho de 2010 • 5 Comentários

Era sexta-feira passada. Outro dia das minhas férias, um dia comum, um dia entediante. Meu pai chega em casa lá pelas 6 horas, e diz que tem uma carta para mim. Todas as vezes que recebi uma carta na vida era propaganda de políticos, empresas de cartão de crédito que eu nem ao menos sou cliente me mandando feliz aniversário. Ou seja, o clássico spam na vida real.
Ele começa a ler a carta. Eu nem sei porque ele faz isso, se provavelmente eu não vou escutar. No meio das baboseiras que eu ouvia enquanto usava o computador, até mesmo o meu pai não estava muito interessado em ler, ouvi algumas palavras chave, tribunal, regional, mesário. Epa, pera aí. Mesário?
Fudeu!
Na hora eu postei no twitter um tweet bem irônico sobre as minhas mais novas responsabilidades. E em segundos fui brindado com algumas respostas geniais mais irônicas que a minha. Misturando todas elas, eu seria alguém do tipo que sentaria na cadeira com os pés sobre a mesa, cachimbo na mão, chapéu na cabeça. Se isso não bastasse, uma pistola na cintura e uma voz poderosa que eu gritaria:
– Cadê o seu título de eleitor? Identidade? Não estou vendo! Aqui tu não vota, rapá!!!
É isso aí. Xerife Lucas Blindwood, prazer.
Como a justiça é cega, o sistema eleitoral, o mesário, epa, o mesário não dá! – Por isso mesmo eu teria que ir lá desfazer o mal entendido. Ou não.
Essa situação me fez pensar se o país tivesse adaptado o cargo de mesário para pessoas com deficiência. A famigerada história de inclusão para todos, e confesso que comecei a rir sozinho. A reflexão me pôs para pensar uma segunda vez: Qual ajuda do governo eu já recebi até hoje por ser cego?
Até hoje tive meus materiais de escola impressos em centros especializados, mas não sempre que precisei. Já tive acompanhamento educacional, aula de orientação, e acho que só. Bom, isso não é suficiente. Tanta coisa poderia ser mudada nas ruas: sinaleiros, calçadas, leis, coisas simples. E é feito? Não. E eu nem sei por quê.
Muitos benefícios que são disponibilizados para pessoas com deficiência requerem que a pessoa em questão tenha uma renda reduzida. O que não acho justo. É claro. Pago imposto do mesmo jeito, contribuo com o sistema, mas o sistema não contribui comigo. A maioria dos produtos especializados para deficientes custam uma fortuna pelo fato de serem produzidos em pequena escala, e a maioria deles serem importados. O meu celular não pode ser um de 50 reais que é só tirar da loja e sair usando. Infelizmente, ou felizmente, ah… Sei lá. Tem que ser um smartphone que possa rodar um leitor de telas para celular. Afinal, ninguém gosta de usar um celular sem tela. É como me sinto usando um celular que não é acessível, um celular que não fala. No final das contas, o ponto é que eu tenho as mesmas dificuldades que os outros deficientes, e às vezes o estado me exclui de facilidades que eu poderia ter se meus pais ganhassem apenas um salário mínimo ou dois, que é normalmente como funciona os requisitos dessas facilidades. Poderia se alegar que, como meus pais recebem mais que o valor estipulado, eles podem pagar sem problemas para que eu tenha as mesmas facilidades que as pessoas que não podem pagar. Mas isso é uma mentira. Um exemplo que posso citar como estudei em escola particular, boa parte da minha vida, para que eu tivesse meu material, além de pagar minha apostila no colégio, algumas vezes tive que pagar para que minhas apostilas fossem impressas em Braille, porque o estado não imprimiria para mim. Ou seja, acabei pagando duas vezes para ter acesso a informação.
Pois é, José. E nem sei se emprego o termo facilidade corretamente. Com o passar do tempo, acostumei com as coisas do jeito que são que às vezes nem me lembro do que está certo e do que está errado. E quando aparece algo novo que deveria ser feito, algo que deveria ser assim há muito tempo, eu chamo de facilidade, mas não é bem assim. Torna-se uma facilidade a partir do momento que você está acostumado a fazer algo, e a maneira certa, mostra-se mais fácil do que a errada, é nesse sentido que eu me refiro.
Acho que isso acaba acontecendo sempre com a gente. Tento me policiar para analisar as coisas. Aquelas que tem muita importância e as que nem tem tanta assim. Pensar se isso está certo ou errado, o que da para mudar, e se tem como mudar. Ficar parado, acostumado é conformismo, e às vezes podemos cair nele sem perceber. Dou o meu exemplo, mas não sou diferente de ninguém aí. Eu faço várias coisas, e as pessoas também. Eu me acostumo com as coisas, e as pessoas também. É tudo muito parecido, muito acostumado. É… Conformado.